quinta-feira, 24 de abril de 2008

Fabricio Carpinejar


Você não perguntou se eu podia, ou se devia.
Você não me diminuiu para se sentir mais forte.
Você não se escandalizou com a mentira; eu não completei a verdade. Você não pensou no futuro, não pesou as conseqüências, não penou antes da hora.
Você não se protegeu do que desconhecia.
Não alertou que sofreria comigo, e que depois não sairia ileso.
Você não me forçou a adivinhá-lo.
Não apelou para o bom senso.
Você não me inventou, muito menos queimou o rascunho.
Você não me ameaçou com gentilezas.
Não me incriminou com seus temores, não explicou seus traumas.
Não se fez de vítima como se eu estivesse atacando. Não, você me carregou nos ombros pela cintura. Os dois dedos dentro do meu cinto empurrando a dança.
Não me solicitou prova, testemunhas, sinais. Não emprestou a Deus o que acontecia em segredo. Você lembrou do sinal-da-cruz longe da igreja.
Não me julgou por antigos amores.
Não me condicionou a amar como estava acostumado.
Não esperou que eu pronunciasse o que vinha escrito em carta.
Você me olhava com os cabelos.
Você não pediu fiança, recompensa, para se entregar.
Você veio com a roupa do corpo, com o corpo ainda sem culpa.
Você me fechou em suas pernas e deixou a porta aberta do quarto.
Você me exilou no desejo para me repatriar aos poucos.
Você esqueceu as janelas chiando na cozinha.
Você foi incapaz de me constranger quando desisti de responder. Você não me incitou a casar contigo, não me incitou a namorar.
Você não isolou minhas frases, não alegou que era uma fase.
Você me perdoou como se não existisse.
Você me fez existir para que perdurasse.
Você não me reclamou distante, não cobrou que mandasse notícias.
Você desaparecia quando desaparecia e voltava quando voltava.
Você me afirmava quando me confundia.
Você segurava a nudez para que subisse.
Você não me comparou a ninguém, muito menos aquilo que já fui.
Você não me subornou com a infância ou com o medo da morte.
Você não explorou meus segredos para usá-los.
Você não quis que falasse para preencher as falhas.
Você arredondou os defeitos pela pressa de cuidá-los. Você foi generoso com os meus ouvidos, confiando mais no vento do que na palavra.
Você me permitiu. Você me entendeu ao não entender.
Você não teve nada a ver comigo - finalmente eu não me repetia.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sou

"Existo como sou,
isso é o que basta;
se ninguém mais no mundo
toma conhecimento,
eu me sento contente;
e se cada um e todos
tomam conhecimento,
eu contente me sento.

Existe um mundo
que toma conhecimento,
e este é o maior para mim:
o mundo de mim mesmo."

Walt Whitman

domingo, 20 de abril de 2008

Republicacoes

Vou postar aqui alguns textos que escrevi para o meu Photoblog, tempos atras.
Espero que gostem.
Bon voyage!

"Ha alguns anos, se eu pudesse, teria ficado crianca a vida inteira. Teria vivido sem malicia e sem aquelas descobertas dolorosas que a vida adulta traz.
Teria andado de pes descalcos pelo resto dos dias e passado minhas tardes correndo na rua, tomando banho de rio ou assistindo desenho, como as criancas faziam antes.
Teria a pele queimada pelo sol escaldante de Cuiaba, os cabelos bem curtos e os cadernos da escola incompletos e cheios de rasuras.
Ainda seria cheia de personalidade e distraida,com a cabeca na lua, como minha mae diz que sempre fui, desde sempre.
Mas com o passar do tempo acabei me conformando com o avancar dos anos.
Acabei aprendendo a gostar de ser quem me tornei, de ser dona do meu nariz, responder por minhas decisoes.
Descobri que ser mae e muito desgastante, mas tambem uma delicia.
Aprendi a ser menos preconceituosa e a gostar das pessoas do jeito que elas sao, mesmo que tenham me ensinado o oposto.
E percebo, finalmente que cada epoca, cada etapa da vida tem seu prazer e sua dor."

quarta-feira, 16 de abril de 2008



Escolhas de uma vida

A certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por
Woody Allen diz: "Nós somos a soma das nossas decisões".

Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu.
Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o
destino pouco tem a ver com isso.

Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção,estamos descartando
outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou
chamar "minha vida".

Não é tarefa fácil. No momento em que se escolhe ser médico, se está
abrindo mão de ser piloto de avião. Ao optar pela vida de atriz, será quase
impossível conciliar com a arquitetura. No amor, a mesma coisa: namora-se
um, outro, e mais outro, num excitante vaivém de romances. Até que chega um
momento em que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem
compromisso formal com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir
embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar uma
microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e
responsabilidades.

As duas opções têm seus prós e contras: viver sem laços e viver com
laços...

Escolha: beber até cair ou virar vegetariano e budista? Todas as
alternativas são válidas, mas há um preço a pagar por elas.

Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados
de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se
está bem-disposto e não tê-los quando se está cansado. Por isso é tão
importante o auto conhecimento. Por isso é necessário ler muito, ouvir os
outros, estagiar em várias tribos, prestar atenção ao que acontece em volta
e não cultivar preconceitos. Nossas escolhas não podem ser apenas
intuitivas, elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve
reavaliar decisões e trocar de caminho: Ninguém é o mesmo para sempre.

Mas que essas mudanças de rota venham para acrescentar, e não para anular a
vivência do caminho anteriormente percorrido. A estrada é longa e o tempo é
curto.Não deixe de fazer nada que queira, mas tenha responsabilidade e
maturidade para arcar com as conseqüências destas ações.

Lembrem-se: suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas também 50%
de chance de darem errado. A escolha é sua...!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Quando era pequena, ate onde me lembro, tudo tinha um cheiro. Havia o cheiro de ferias, de domingo de manha, de mae brava.
Uma senhora vendia produtos de beleza desses que a gente escolhe por catalogo, para a minha mae. E dava as amostras dos "batonzinhos" pra mim. E o cheiro deles ficou nos meus labios.
O aroma do pao caseiro assado que minha avo fazia ainda perfuma minhas lembrancas e embala a nostalgia que sinto dos tempos felizes.
Havia uma nevoa que pairava no ar. Um ar pesado, mas nao desagradavel, jamais, mas quase palpavel que envolvia meu mundo infantil.
O cheiro dos materiais escolares novos. O cheiro de manteiga no pao. Cheiro da minha irma pequenina, ainda bebe. Cheiro do Domingo no Parque, Bozo e Bambalalao.
E o cheiro do tempo. Esse que passa e leva embora cada peca do quebra cabeca. O que impossibilita e que tudo cura. O tempo todo e o senhor da vida.
O cheiro de agora, o cheiro que ja foi.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

NAO QUERO

Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível... Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre... E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho... Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... e não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas... Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim". Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim...e que valeu a pena!!!


MARIO QUINTANA

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A VIDA




Para os erros há perdão;

Para os fracassos… chance;

Para os amores impossíveis… tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.

O romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque…

Que a rotina acomode… que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você.

Gaste mais horas realizando que sonhando…

Fazendo que planejando…

Vivendo que esperando…

Porque embora quem quase morre esteja vivo…

Quem quase vive já morreu.


(Atribuido a Fernando Pessoa)

terça-feira, 1 de abril de 2008

O Passado e uma roupa que nao nos serve mais

Aqui em casa e um pouco dificil escrever. Som de TV alto ligado em programa infantil, motoristas exaustos e impacientes buzinando seus carros na rua, a ambulancia esgoelando sua chegada e sim, o meu cansaco acaba por me abater.
Mas hoje esta diferente. Nao la fora, o mundo continua igual. Aqui dentro ha algo ligeiramente mudado:

"Um tipico quadro de transicao, no qual as vozes do passado se negam a morrer e o futuro, com suas efusoes de luz e maldade, nao passa de um balbucio desconcertado"
, escreveu Alan Pauls em seu belissimo "O Passado".

E a contradicao me assalta nesse ponto. Vejo meus dias ja vividos como aqueles que contam minha historia, paginas escritas por horas de ocio, viagens, observacoes, conversas, sono, sexo, riso, choro, trabalho, musicas, livros, filmes, caminhadas, devaneios. Vejo minha vida, o que me fez ser quem sou hoje.
Mas me prendo demais? Deixo de viver o hoje, o agora e o aqui, compartilhando meus textos com alguem, ordenando as ideias? Nao aprecio o que esta acontecendo nesses dia primeiro de abril de dois mil e oito, as dezenove horas e treze minutos, aos trinta anos de idade, com uma vida inteira a frente???
Nao quero chegar aos 60, 70 anos e dizer "quanta coisa poderia ter feito". Quero faze-las agora. Quero historias praa contar, quero ver o mundo, tocar e sentir o sublime e ter, ao envelhecer, o gosto de ter escolhido minha vida, usufruindo dela e nao "sendo usufruido" por ela, "viver de forma a querer a mesma vida sempre" (Nietzsche).

Para concluir cito Schopenhauer, sempre pertinente:

"A maior sabedoria e ter o presente como objeto maior da vida, pois ele e a unica realidade, tudo o mais e imaginacao. Mas poderiamos tambem considerar isso nossa maior maluquice, pois aquilo que existe so por um instante e some como um sonho nao merece um esforco serio."





livros, livros, livros

Nesta embalagem voce encontra:

Minha foto
Sao Paulo/SP, Brazil
Uma mulher inquieta, intensa, passional, desorganizada, sensivel, ansiosa. Outsider.