quarta-feira, 25 de junho de 2008

fragmentos

SOB A PELE

SOB A PELE
Sob a pele
Se escondem as dores
Se choram os amores
Os ossos amolecem
As lágrimas pesam
Os dedos se afundam
Os olhos se fecham
E a dor não tem voz

Sob a pele
Os movimentos são dolorosos
A música emudece
A luz é morta
A agua é turva
A alma erma
Se esconde

Sob a pele
Os sabores são amargos
O toque é dolorido
O halito é frio
O amor murcha
O chão se abre

Sob a pele
Se morre aos poucos.


Ana Lucie



"As minhas solidões vou,
Se minhas solidões venho,
Porque por andar comigo
Me bastam meus pensamentos."

Lope da Vega




"Por dentro de mim
onde
nao existo mais.
Por dentro
onde nao caibo.
Tao fundo
como se nao fosse."

Alvaro Alves de Farias




"Ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos
quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide de seus problemas
que eu cuido dos meus"

Paulo Leminski




Quanto mais me elevo, menor fico aos olhos de quem não sabe voar. (Nietzsche)


Sou feliz e trago as provas
Nos meus olhos molhados
E vejo a vida tão diferente
E já posso entender
A inocência do prazer

Cazuza



"Depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."

Caio F. Abreu

http://photoblog.com/analucie

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Uma narrativa

Durmo cedo. Umas oito e meia. Ela tosse. Acordo atordoada, a abraco. Mamae, me da agua por favor? Me da sua mao.
Acordo. Sao quatro e meia, ja esta na hora. Tomo um banho longo. Esta muito frio agora. Me visto com muitas blusas, um casaco grande por cima, cachecol.
Carona ate o centro. Tchau, bom dia, vamos nos falando. Tomo o onibus e minha viagem de meia hora e embalada por Etta James, Offspring, Joni Mitchell e John Legend. E leio Oliver Sacks enquanto os ouco. Vejo as vozes e ouco as imagens. Ainda durmo?
Desco na Santo Amaro. Compro paes no mercado 24 horas, bom dia senhora, obrigado e ate amanha.
Caminho ate o trabalho, ainda esta escuro e sempre vejo os mesmos, passando apressados, olhando para o chao.
Mais um dia. Menos um dia? As horas passam rapidas, mas penosas e dificeis. Converso com pessoas muito diferentes, centenas delas. Agradaveis, grosseiras, doceis, arrogantes. Ouco historias, dou informacoes, obedeco, peco desculpas.
Preciso de ferias. Engulo a refeicao, cara e saborosa. Tenho pressa. Sempre estou com pressa. Sou pontual, ja cumpri todas as minha tarefas, mas nao paro.
Sao quatro horas. Me troco e saio. Ja na rua percebo quanto tempo estou sem pensar. Ligada no piloto automatico. O ceu esta lindo, azul, sem nuvens. O clima frio torna o dia um pouco etereo.
Chego, tomo lanche, preparo a janta. Escuto, mas nao digo o que penso. E mais facil assim.
Dou banho nela, o jantar, escovo seus dentes. Coloco-a para dormir.
Mamae, me da agua por favor? Me da sua mao. Sao oito e meia. Durmo cedo.


PS: uma musica que combina perfeitamente com esse texto e EVERYDAY IS EXACTLY THE SAME, do Nine Inch Nails.

Experimente:
http://br.youtube.com/watch?v=dqXmaFPn604

E a letra:
I believe I can see the future
Cause I repeat the same routine
I think I used to have a purpose
But then again
That might have been a dream
I think I used to have a voice
Now I never make a sound
I just do what I've been told
I really don't want them to come around

Oh, no

[Chorus:]
Every day is exactly the same
Every day is exactly the same
There is no love here and there is no pain
Every day is exactly the same

I can feel their eyes are watching
In case I lose myself again
Sometimes I think I'm happy here
Sometimes, yet I still pretend
I can't remember how this got started
But I can tell you exactly how it will end

[Chorus]

I'm writing on a little piece of paper
I'm hoping someday you might find
Well I'll hide it behind something
They won't look behind
I'm still inside here
A little bit comes bleeding through
I wish this could have been any other way
But I just don't know, I don't know what else I can do

domingo, 22 de junho de 2008

Eu, por Luciana. Luciana, por ela mesma.

Minha irma escreveu o texto abaixo. Mas de tanto ser meu retrato, me apossei dele. Sou eu. E ela. Somos assim.

"Estou me conhecendo.
Descobri que tenho vícios que nem imaginava que poderiam ser classificados assim e descobri que tenho hábitos que recebiam outros nomes...
Às vezes me surpreendo comigo mesma. Às vezes me considero uma fraude.
Tem horas que olho no espelho e fico tentando decifrar como os outros me vêem. Na maioria das vezes, porém, eu acredito cegamente que eles me vêem como eu me vejo.
Tenho medos: morte, perdas, solidão, velhice.
Tenho alegrias: Heber, Ana e Aninha, colo de mãe, sobremesas do restaurante vegetariano, aulas de filosofia, e-mails de amigos antigos, filmes alternativos.
Sou formada por futilidades, paixões e um senso de humor não muito óbvio. Sou inteligente. Mas não como eu gostaria de ser.
Queria saber desenhar e cantar. Queria saber um pouco de Exatas também. E piano.
Queria viajar. Morar um tempo fora.
Queria me tornar uma teóloga bem influente. Dizer coisas novas e relevantes. E ficar perto de Deus ao mesmo tempo.
Queria querer ter filhos. E ter adotivos entre os biológicos.
Queria amar mais a vida. Eu não a valorizo como ela merece.
Preciso de um pouco mais de autenticidade. O que tenho não é suficiente, definitivamente.
Preciso mudar para uma casa num lugar menos barulhento, com um quarto bem escuro. Adoro dormir na escuridão profunda. Aliás, adoro dormir.
Sou eu. E não outra pessoa.
Sou eu. Mas também existem outras pessoas."

sábado, 21 de junho de 2008

O poeta que traduz a alma

Hoje, depois de longo hiato volto para compartilhar a poesia de Florbela Espanca.
Abaixo trechos de sua singular biografia:

Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

FONTES:
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/projtelecolab/tintalusa/
numerodois/tl3.html

http://purl.pt/272/2/index.html

http://www.torre.xrs.net/

Coleção “A Obra Prima de Cada Autor” – Editora Martin Claret



E para encerrar, um dos meus poemas favoritos da autora:

"Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto sem poder dizer!"

livros, livros, livros

Nesta embalagem voce encontra:

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Sao Paulo/SP, Brazil
Uma mulher inquieta, intensa, passional, desorganizada, sensivel, ansiosa. Outsider.